Propriedade Intelectual e Inovação

Gestão da Inovação Tecnológica
Fundamentos e Práticas

Luiz Diego Vidal Santos

Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)

Introdução

A Inovação como Imperativo Estratégico

Definição de Schumpeter (1942)

Destruição Criativa: Introdução de: - Novos bens - Novos métodos de produção - Abertura de novos mercados - Novas fontes de matéria-prima - Reorganização industrial

“Motor da destruição criativa”

Evolução Teórica

Fundamentos - Schumpeter: Destruição criativa - Freeman (1987): Sistemas nacionais - Lundvall (1992): Sistemas de inovação

Paradigmas Contemporâneos - Inovação Aberta (Chesbrough, 2003) - Capacidades Dinâmicas (Teece, 2007) - Ecossistemas (Adner, 2006)

Campo Multidisciplinar da Gestão da Inovação

Características Fundamentais

Natureza Multidisciplinar - Teorias organizacionais - Economia da inovação - Gestão estratégica

Cenário Contemporâneo - Intensa volatilidade - Rápida transformação digital - Conhecimento como vantagem competitiva

Requisitos Gerenciais - Mecanismos robustos - Processos sistemáticos - Governança estruturada

Sistemas Integrados

Diretrizes para formalizar: - Governança - Atividades inovativas - Mensuração de resultados - Otimização de ROI

Objetivo: Transformar esforços em processos sustentáveis

ISO 56002: Contexto e Liderança

Governança e Alinhamento Estratégico

Cláusula 4: Contexto da Organização

Análise do Ambiente - Partes interessadas - Contexto interno e externo - Escopo do SGI

Cláusula 5: Liderança

Princípio 2: Líderes focados no futuro - Inspirar e engajar equipes - Equilibrar curto e longo prazo - Investimento no futuro

Cláusula 6: Direção Estratégica

Alinhamento Estratégico - Visão de inovação - Objetivos estratégicos - Política de inovação

Evolução dos Modelos - 1ª Geração: Linear (Rothwell, 1994) - 3ª Geração: Sistêmico - Atual: Inovação Aberta

Inovação Aberta (Chesbrough, 2003)

Conceito Central

“Construir modelo de negócio superior é mais importante que chegar primeiro ao mercado”

Paradigma da Inovação Aberta - Transcende P&D interna - Valoriza conhecimento externo - Explora PI estrategicamente - Colaboração interorganizacional

Impacto na Direção Estratégica - Redefine limites da organização - Amplia fontes de conhecimento - Diversifica rotas de mercado

Pré-requisitos

Capacidade Absortiva (Cohen & Levinthal, 1990)

Habilidade de: - Reconhecer valor da informação externa - Assimilar conhecimento - Aplicar comercialmente

Características - Path-dependent (cumulativa) - Construída ao longo do tempo - Essencial para spillovers

Capacidade Absortiva: Função Dual da P&D

Função Tradicional

Geração de Inovações - Pesquisa básica e aplicada - Desenvolvimento experimental - Prototipagem - Novos produtos/processos

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Função Estratégica

Construção de Conhecimento - Estoque de conhecimento prévio - Base para absorção externa - Integração de spillovers - Exploração de insights (Princípio 5 ISO)

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Implicação Estratégica: Investimento em P&D não apenas como gerador direto de inovação, mas como capacitador da absorção e integração de conhecimento externo

Processo de Inovação

Estruturação do Processo (ISO 56002)

Cláusula 8: Operação

Processo de Inovação - Geração de ideias - Avaliação e seleção - Desenvolvimento - Comercialização - Proteção de PI

Princípios Associados - Princípio 4: Cultura - Princípio 8: Abordagem de Sistemas

Cláusula 7: Apoio

Recursos Necessários - Pessoas e competências - Infraestrutura - Conhecimento organizacional - Comunicação

Base para implementação efetiva do processo de inovação

Arquétipos da Inovação Aberta

Gassmann & Enkel (2004): Três Processos Fundamentais

Outside-In

Integração de conhecimento externo - Parcerias - Aquisição de tecnologia - Colaboração com universidades - Open sourcing

Inside-Out

Comercialização de PI - Spin-offs - Licenciamento - Venda de patentes - Transferência tecnológica

Coupled Process

Co-criação interorganizacional - Joint ventures - Alianças estratégicas - Consórcios de P&D - Ecossistemas

Alinhamento: Gestão sistemática do fluxo de conhecimento e PI (Cláusula 8 ISO 56002)

Tríplice Hélice e NITs

Modelo Tríplice Hélice (Etzkowitz & Leydesdorff, 2000)

Hélice III: Interativa

Inovação como resultado de interdependências:

Universidade ↔︎️ Empresa ↔︎️ Governo

Interdependências sistêmicas e co-evolução

Características - Superposição de funções - Hibridização institucional - Redes trilaterais

Lei nº 10.973/2004 (alterada pela Lei nº 13.243/2016)

Núcleos de Inovação Tecnológica (NITs)

Funções como Boundary Spanners: - Interface universidade-empresa - Tradução de resultados científicos - Gestão de ativos estratégicos - Mediação de assimetrias

Processo Inside-Out na prática

Sistematicidade nos Ambientes Acadêmicos

Papel dos NITs (Aldrich & Herker, 1977)

Boundary Spanners - Conectam ambientes distintos - Mediam assimetrias cognitivas - Traduzem linguagens - Gerenciam expectativas temporais

Desafios de Mediação - Assimetria cognitiva: lógica científica vs. comercial - Assimetria temporal: horizontes de pesquisa vs. mercado - Valoração de tecnologias em estágios iniciais - Proteção intelectual vs. publicação

Materialização da Política

Os NITs executam: - Gestão de PI - Transferência de tecnologia - Negociação de contratos - Criação de spin-offs - Cultura de inovação

Resultado: Tradução de resultados científicos em ativos estratégicos

Avaliação e Melhoria

Mensuração e Gestão da Incerteza

Cláusula 9: Avaliação de Desempenho

Princípio 6: Gerenciamento da Incerteza - Monitoramento contínuo - Análise crítica - Avaliação de riscos - Aprendizado sistemático

Princípio 1: Realização de Valor - Criação de valor para stakeholders - Equilíbrio de interesses - Sustentabilidade

Cláusula 10: Melhoria

Não-conformidades - Ações corretivas - Análise de causas-raiz

Melhoria Contínua - Aprendizado organizacional - Adaptação estratégica - Evolução do SGI

Ciclo PDCA aplicado à inovação

Manual de Oslo: Métricas Sistêmicas

OCDE/Eurostat (3ª Edição)

Atividades de Inovação (além de P&D):

  • P&D interna e externa
  • Aquisição de conhecimento externo
  • Aquisição de máquinas e equipamentos
  • Treinamento
  • Introdução de inovações no mercado
  • Design e outras preparações

Visão sistêmica alinhada à ISO 56002

Mensuração Abrangente

Tipos de Indicadores

Input - Gastos em P&D - Investimento em PI - Capital humano

Output - Patentes - Publicações - Licenciamentos

Processo - Tempo de desenvolvimento - Taxa de sucesso

Ecossistemas de Inovação

Framework de Adner & Kapoor (2010)

Componentes Upstream

Características - Integrados - Intensivos em coordenação - Tecnologias centrais - Alto acoplamento

Dinâmica - Desafios reforçam incumbentes - Barreiras à entrada elevadas - Controle da cadeia de valor

Complementos Downstream

Características - Modulares - Desagregáveis - Aplicativos e serviços - Baixo acoplamento

Dinâmica - Desafios abrem espaço para entrantes - Barreiras à entrada reduzidas - Inovação descentralizada

Implicação Estratégica: Monitorar e coordenar dependências tecnológicas no ecossistema, antecipando gargalos upstream e explorando oportunidades downstream

Complexidade da Realização de Valor

Interdependências Tecnológicas

Gestão Eficaz Requer - Inovação interna - Monitoramento do ecossistema - Coordenação de dependências - Antecipação de gargalos - Exploração de oportunidades

Não basta inovar: é preciso orquestrar o ecossistema

Estratégias por Posição

Upstream (Componentes) - Investimento em capacidades - Controle de interfaces - Padrões tecnológicos

Downstream (Complementos) - Abertura e modularidade - Plataformas - Ecossistema de parceiros

Estrutura de interdependências determina estratégias

Caso UFS: Agitte.se

Política Institucional de Inovação

Dimensões Estratégicas - Gestão de Propriedade Intelectual - Valoração de ativos intangíveis - Negociação de parcerias - Transferência de tecnologia - Empreendedorismo acadêmico

Operacionalização: Agitte.se

Indicadores Multidimensionais

Alinhados ao Manual de Oslo e ISO 56002

Input - Gastos em PI - Investimento em NITs

Output - Depósitos de patentes - Contratos de licenciamento - Spin-offs criadas

Processo - Tempo médio de licensing - Taxa de transferência

Exemplo de patente universitária

Geocomposto Vegetal

Exemplo de invenção desenvolvida na universidade que completou o ciclo de proteção e transferência:

  • Depósito de patente junto ao INPI
  • Base científica validada por publicações
  • Potencial de licenciamento para indústria de bioengenharia

Patente de geocomposto vegetal - exemplo de output de PI universitária

Conclusão

SGI como Estrutura para Vantagem Competitiva

Essência da Gestão da Inovação

Abordagem Sistemática - Transformação de conhecimento em valor - ISO 56002 como framework normativo - Integração de princípios

Componentes Integrados - Liderança - Cultura - Estratégia - Processo

Alinhamento Teórico-Prático

Conceitos Acadêmicos - Capacidade Absortiva - Inovação Aberta - Ecossistemas de Inovação

Estrutura ISO 56002 - Esforços repetíveis - Resultados mensuráveis - Sustentabilidade

Sistematicidade = Vantagem Competitiva

Desafios Estruturais no Contexto Brasileiro

Principais Obstáculos

Assimetrias Informacionais - Valoração de tecnologias em estágios iniciais - Technology Readiness Levels 2-4 - Dificuldade de precificação

Cultura Institucional - Proteção intelectual incipiente - Tensão publicação vs. patenteamento - Desconhecimento de mecanismos de transferência

Divergências Temporais - Pesquisa acadêmica: longo prazo - Expectativas empresariais: curto prazo - Assimetria de horizontes

Consolidação do SGI

Requer - Superação de barreiras culturais - Capacitação institucional - Alinhamento de incentivos - Investimento em estrutura

Contexto: Transição para economia do conhecimento

Perspectivas Futuras

Capacidades Ambidestras

Equilíbrio entre - Exploração: Pesquisa científica, novos domínios - Explotação: Aplicação de conhecimentos existentes

Organizações precisam gerenciar simultaneamente ambas as dimensões

Métricas Balanceadas

Harmonização - Excelência científica - Impacto socioeconômico - Sustentabilidade

Inovação para o Desenvolvimento

Economia do Conhecimento - Inovação como vetor de desenvolvimento - Responsabilidade social - Sustentabilidade ambiental - Inclusão tecnológica

Objetivo Final: SGI como instrumento de desenvolvimento sustentável e competitividade na economia do conhecimento

Referências

ABNT NBR ISO 56002:2020. Sistema de gestão da inovação - Diretrizes. Associação Brasileira de Normas Técnicas, 2020.

ADNER, R.; KAPOOR, R. Value creation in innovation ecosystems: how the structure of technological interdependence affects firm performance in new technology generations. Strategic Management Journal, v. 31, n. 3, p. 306-333, 2010.

ALDRICH, H.; HERKER, D. Boundary spanning roles and organization structure. Academy of Management Review, v. 2, n. 2, p. 217-230, 1977.

CHESBROUGH, H. Open Innovation: The New Imperative for Creating and Profiting from Technology. Harvard Business School Press, 2003.

COHEN, W. M.; LEVINTHAL, D. A. Absorptive Capacity: A New Perspective on Learning and Innovation. Administrative Science Quarterly, v. 35, n. 1, p. 128-152, 1990.

ETZKOWITZ, H.; LEYDESDORFF, L. The dynamics of innovation: from National Systems and “Mode 2” to a Triple Helix of university-industry-government relations. Research Policy, v. 29, n. 2, p. 109-123, 2000.

GASSMANN, O.; ENKEL, E. Towards a Theory of Open Innovation: Three Core Process Archetypes. R&D Management Conference, 2004.

OCDE/Eurostat. Manual de Oslo: Diretrizes para Coleta e Interpretação de Dados sobre Inovação, 3ª edição. FINEP, 2005.

ROTHWELL, R. Towards the fifth-generation innovation process. International Marketing Review, v. 11, n. 1, p. 7-31, 1994.

SCHUMPETER, J. A. Capitalism, Socialism and Democracy. Harper & Brothers, 1942.

TEECE, D. J. Explicating dynamic capabilities: the nature and microfoundations of enterprise performance. Strategic Management Journal, v. 28, n. 13, p. 1319-1350, 2007.

WILLIAMSON, O. E. The Economic Institutions of Capitalism. Free Press, 1985.

Obrigado!

Luiz Diego Vidal Santos

Universidade Federal de Sergipe

ldvsantos@uefs.br